sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


Movimentos sociais, mídia e a aura do impulso da mudança

Artigo de Carole Ferreira da Cruz

 mestranda em Comunicação pela Universidade Federal de Sergipe
 integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNPq/UFS)
editora dos Cadernos do Tempo Presente e bolsista Fapitec. 


A história dos movimentos sociais no mundo está diretamente ligada aos meios de comunicação. O desenvolvimento do capitalismo e do Estado Moderno criou um ambiente favorável a partir do século XVII para que novos atores políticos começassem a intervir no jogo de forças da sociedade, apoiados nas mídias nascentes para fazer ecoar seus discursos. Com o advento da imprensa e posteriormente dos veículos eletrônicos, lutas por reconhecimento se tornaram cada vez mais lutas pela visibilidade, ao alcançar uma dimensão pública e servir como apelo para a mobilização dos indivíduos.

Gestada ainda nos grupos de caráter revolucionário e operário, essa simbiose se acentuou com a complexificação e proliferação dos coletivos sociais pós-anos 60, que passaram a lutar por causas mais diversas: pacifismo, feminismo, ambientalismo, racismo, direitos civis e diversidade sexual. O surgimento dos novos movimentos sociais forneceu amplo testemunho de que as reivindicações até então subordinadas ou marginalizadas só são conquistadas através de lutas pelo espaço do visível na mídia, reflexo da transformação geral da natureza do poder e da política nas sociedades modernas.

Em meios à ascensão e fortalecimento das comunicações de massa no século XX, o acesso à mídia e à produção simbólica passou a ser fundamental tanto para a capacidade de mobilização dos movimentos sociais quanto para influenciar a opinião pública e pressionar o sistema político. O grande entrave nesse processo tem sido, desde então, a formação de grandes conglomerados midiáticos baseados num modelo oligopolista, concentrador e excludente, em que as elites, o mercado e o Estado exercem o papel de controladores da informação.

Diante de tal cenário, só restam a esses coletivos dois caminhos: desenvolver repertórios de ação para chamar a atenção das indústrias da mídia ou investir nos próprios meios de comunicação, na busca por definir e enquadrar suas demandas, atingir potenciais alvos, organizar a ação coletiva e, por último, atrair a atenção dos meios massivos. O nascimento e a rápida expansão das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) fortalecem a produção e veiculação dessas comunicações alternativas e possibilitam formas inéditas de apropriação, capazes de provocar mudanças nas interações geradoras de sociabilidade, cultura e mobilização.

Ao possibilitar que pessoas comuns e grupos organizados realizem atividades antes concentradas nas indústrias da mídia, abrindo caminhos inéditos e de baixo custo para gerar e distribuir conteúdos em rede, as tecnologias digitais desconstroem os papéis tradicionais de produtor/consumidor e emissor/receptor. A partir de suas especificidades e, sobretudo, da inversão causada nos fluxos comunicativos paradigmáticos até então, a Internet tem favorecido a criação e o aperfeiçoamento de novos repertórios de ação dos movimentos sociais e o surgimento de formas inéditas de ativismo.
                                                             
Se o simples acesso a essas ferramentas digitais fortalece, e em que medida, a ação política, só estudos mais aprofundados poderão dizer no futuro. O que se sabe até então é que cada nova tecnologia da comunicação trouxe, no seu tempo e contexto históricos, essa aura de impulso da mudança, posteriormente esvaziada a partir dos usos comerciais e das apropriações pouco qualificadas feitas delas. Foi assim com a prensa, o cinema, o rádio e a televisão. Pode ou não ser assim com a Internet.



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


América indígena nos livros didáticos

Artigo de Itamar Freitas

Professor do Departamento de Educação e do Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe.


Antropofagia. Exemplo dos mais conhecidos para expressar a incivilidade indígena ou a sofisticação das suas crenças. (Gravura em metal de Theodor de Bry, 1592).
Há quase uma década, tornou-se lugar comum compreender os indígenas como sujeitos históricos, detentores de passado e produtores do seu futuro. Paralelamente, fortaleceu-se a crítica de que os livros didáticos veiculam imagens desatualizadas em relação ao que se pesquisa nas ciências humanas e sociais em nível acadêmico. Alguns críticos afirmam que os livros representam indígenas como situados nos degraus iniciais da escada civilizatória.

Para saber até onde vai o exagero da crítica e conhecer melhor a natureza da escrita didática da história, investiguei dois manuais de história da América publicados no Brasil e na Argentina. Mas não centrei atenção nos didáticos contemporâneos. Fui ao início do século passado para saber como os autores de livros didáticos se apropriam da pesquisa avançada sobre a pré-história do homem americano. Investiguei o Compendio de historia da America (1900) do brasileiro Rocha Pombo (1857-1933) e o Compendio de la historia general de América (1910), do argentino Carlos Navarro y Lamarca (1868-1921).

O resultado pode surpreender aos críticos. Analisando os usos das teses evolucionistas da nascente antropologia norte-americana – a pesquisa reconhecida hoje como avançada no final do século XIX –, constatei que Rocha Pombo empregou as fontes sobre pré-história por meio de um vulgarizador francês, o Marques de Nadaillac (1883). Lamarca, ao contrário, referiu-se diretamente a Lewis Morgan (1877). Seu manual, em algumas passagens, servia como instrumento de erudição, informando, não apenas sobre a teoria em acordo, mas também sobre as novas ideias e as polêmicas entretidas na academia estadunidense.

Caso ainda mais surpreendente pode ser flagrado no país de origem das chamadas pesquisas de ponta. Para R. Nasch (2000), a investigação sobre os povos indígenas destituída dos pressupostos evolucionistas de Morgan, por exemplo – produzida no final do século XIX e início do século XX por autores como Robert Park, Franz Boas e Melville Herskovits –, demoraria três décadas até chegar aos livros didáticos para crianças e adolescentes.

Até às vésperas da II Guerra Mundial, foi o providencialismo e não a teoria evolucionista do progresso – como o fizeram Rocha Pombo e Lamarca no Brasil e na Argentina – que justificou soberanamente a extinção das populações indígenas e a dominação branca sobre o solo estadunidense.

Esses diferentes modos de acessar e empregar a última pesquisa acadêmica nos países consumidores e no país produtor de pesquisa de ponta reforçam a hipótese de que são diversas as motivações e formas de relacionamento entre a informação erudita e escrita didática. Consequentemente, somos convidados a repensar as generalizações que anunciam todos os livros didáticos como produtos sistematicamente atrasados, ontem e hoje.


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013


Joãzinho da Patu

Artigo de Dilton Maynard

Professor do Departamento de História e do Mestrado em História da UFS. Coordena o projeto Memórias da Segunda Guerra em Sergipe (CNPq/edital 07/2011;PRONEM/FAPITEC).
 O artigo integra as colaborações feitas à coluna do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET/CNP/UFS).


Os anos 1940 foram férteis para a música sergipana. A Rádio Difusora Aperipê de Sergipe (prefixo PRJ-6), até então a única emissora local,  recebia cartas escritas por admiradores de várias partes do Brasil com manifestações que empolgavam os seus cantores e músicos.

Dirigindo o Conjunto Regional da PRJ-6, o violonista Ursino Gois, o “Carnera”, era convidado a realizar espetáculos nos grandes clubes da cidade – Sergipe, Cotinguiba. Não faltavam apresentações também no Recreio Club e no Cine Teatro Rio Branco, nem garotos interessados em aprender a tocar violão, mesmo “fugindo” das famílias que não queriam ver os seus filhos metidos com “coisa de malandro”. Um destes moços era Joãozinho da Patu.

Joãozinho estudava em Aracaju. Longe da terra natal, Juazeiro, na Bahia, e da família, "Joãozinho da Patu" (uma referência à sua mãe, D. Patu) divertia-se formando conjuntos vocais com os amigos. O futebol também ajudava a afastar a saudade. O pai de Joãozinho, Juveniano de Oliveira, próspero comerciante, enviou o filho para a capital sergipana a fim de cursar o ginasial no Colégio Jackson de Figueiredo (na época, Juazeiro só possuía o curso primário).

Era 1944 quando Joãozinho chegou a Sergipe. Tinha 13 anos de idade. A Guerra fervia na Europa. Durante o tempo em que esteve na cidade, o garoto teve os primeiros contatos com o violão. Naquela época, tocar este instrumento era algo ainda muito rotulado como "coisa de boêmio". Mas em segredo, o menino  teimava em praticar e recebia preciosa ajuda externa. O primeiro professor de Joãozinho foi Carnera.

À noite, quando saía para fazer seus programas, não era difícil que o músico levasse Joãozinho a tiracolo. É que, na época, o moço, que morava na casa dos tios, era vizinho do violonista. E no estúdio da PRJ-6 o menino nem lembrava da Guerra ou dos avisos da família. Atento, Joãozinho da Patu observava os artistas locais: Dão, João Melo, Guaracy Leite França, Bissextino (baterista que muito o impressionava) João Lopes. Dali, de um estúdio diminuto, aquela turma realizava esforçadas interpretações das canções de Sílvio Caldas, Francisco Alves, Carmem Miranda, Orlando Silva e tantos outros. Vez ou outra alguém mandava ao ar alguma composição própria.

Por estas e outras se dizia que o rádio em Sergipe vivia um grande momento. O menino olhava a tudo e aprendia. Depois, voltava contente para casa sob a guarda cuidadosa de Carnera. Mas os tempos mudaram. Joãozinho da Patu cresceu. E, de violão debaixo do braço, virou João, João Gilberto, cantor da bossa nova, tornou-se conhecido no mundo inteiro.


This Day in History